A castração como controle populacional de cães e gatos

Escrito por Silvia Schultz - Médica Veterinária - CRMV - RS 12750 .

Um dos maiores problemas que vivenciamos atualmente em relação à cães e gatos de estimação é o abandono e os maus tratos. Este problema vem sendo agravado pelo crescente aumento populacional, tanto dos animais de rua quanto daqueles que possuem um lar, mas cujos guardiões não praticam a guarda responsável e acabam submetendo seus pets a cruzamentos totalmente desnecessários, gerando mais e mais animais. Mas quais seriam as soluções para este problema que vem causando cada vez mais sofrimento para milhares de cães e gatos do Brasil inteiro?

Uma das soluções viáveis que poderia amenizar este problema seria a castração de cães e gatos, evitando assim que estes animais continuassem a se reproduzir e conseqüentemente gerar mais abandono. Porém, apenas castrar não basta. É preciso antes de tudo educar. Educar a comunidade para a guarda responsável e para a necessidade de evitar que seus animais cruzem indiscriminadamente. Pois os resultados das famosas “cruzas de fundo de quintal” são desastrosos. A cada ano nascem milhares de cães e gatos provenientes destes cruzamentos, realizados sem critério algum e gerando animais sem raça definida, fora dos padrões físicos e comportamentais, doentes, com alterações genéticas e uma série de outros problemas. Muitos são abandonados à própria sorte nas ruas ainda filhotes ou morrem antes de conseguir um lar responsável. Os poucos que conseguem adotantes, raramente são entregues castrados, e acabam reproduzindo-se e gerando mais animais, alimentando ainda mais a realidade do abandono que parece não ter fim.

A educação para a guarda responsável e para a necessidade da castração de animais de estimação de companhia se faz então, cada vez mais urgente. O esclarecimento acerca deste procedimento, mostrando que a castração vai além do controle populacional, garantindo mais saúde para o animal e tranqüilidade para o guardião é de extrema importância. Muitos guardiões relutam em castrar seus pets por inúmeros motivos, que vão desde o desconhecimento total em relação ao procedimento e suas implicações até pelo não apoio governamental, como a falta de opções de castrações gratuitas ou a preços reduzidos.

Além disso, ainda temos os famosos mitos envolvendo o termo “castração”, o que constitui também uma barreira para a adesão de muitos guardiões, entre eles:

-  Meu animal ficará gordo e apático;

-  Meu cão perderá a masculinidade;

- Minha cachorra precisa ter pelo menos uma cria, para que não desenvolva câncer ao longo de sua vida;

-  Machos ficam mais calmos após cruzar;

-  Animais têm necessidade de cruzar;

-  Cachorras sentem necessidade de serem mães, e sofrem se não tiverem ao menos uma cria;

-  É da natureza do animal reproduzir-se, e não devemos interferir.

Como podemos ver, estes são apenas alguns dos vários mitos existentes, os quais precisam ser trabalhados com cuidado e aos poucos esclarecidos para que a população consiga enxergar os reais benefícios da castração. Cães castrados não ficam gordos e apáticos, e sim mais tranqüilos e educados. Tendem a ter uma vida mais pacata, portanto, necessitam de alguns cuidados extras com alimentação e exercícios regulares, mas nada além disso. Os machos não perdem masculinidade, ao contrário; tornam-se menos ansiosos e desesperados diante de uma fêmea no cio e menos agressivos com outros machos, tornando os passeios e a convivência com outros animais bem mais tranqüila e se castrados antes da puberdade, não demarcam território. As fêmeas não têm necessidade de cruzar para evitar câncer; ao contrário, a castração antes do primeiro cio reduz significativamente as chances de tumores mamários, e elimina a chance de tumores de útero, ovários e piometria (infecção uterina que pode levar a morte cujo tratamento é emergencial e cirúrgico) a zero. Animais não possuem necessidade de cruzar, cruzam apenas por instinto a fim de perpetuarem a espécie, portanto, cadelas não sofrem por não serem mães e cachorros não sofrem por não serem pais, o que torna totalmente desnecessário o cruzamento e a conseqüente prenhêz.

Uma vez então que a população esteja esclarecida acerca da castração e suas implicações, faz-se necessário também o apoio governamental no sentido de proporcionar à população mais carente de recursos financeiros opções de castração gratuitas ou a baixo custo. Campanhas de esterilização são importantes, bem como o estímulo à adoção ao invés da compra de animais, principalmente os advindos de criações de fundo de quintal. Atitudes e políticas governamentais que coloquem a castração como medida principal para o controle populacional de animais de estimação, evitando assim a superlotação de abrigos e centros de controle de zoonoses, que muitas vezes praticam a eutanásia destes animais. A identificação destes animais em um banco de dados e o encaminhamento para programas de adoção são imprescindíveis no sentido de minimizar o crescente problema da superpopulação e abandono. Os animais somente deverão ser doados castrados, eliminando assim as chances de reprodução, e os guardiões deverão ser orientados e educados para a guarda responsável e todos os cuidados que envolvem ter um animal de estimação.

Como pudemos perceber então, soluções para combater a superpopulação de animais de estimação existem e podem ser viabilizadas na prática. Porém, o caminho é longo, pois envolve acima de tudo estratégias de educação e conscientização para a guarda responsável, além de práticas governamentais que tragam programas de esterilização em massa como prioridade para o controle populacional destes animais. Estas ações beneficiarão não somente os milhares de cães e gatos que vivem nas ruas e em centros de controles de zoonoses sem as mínimas condições de bem estar e qualidade de vida, mas também trará benefícios à toda a população, em especial àqueles que lutam por uma vida mais digna e menos dolorosa para nossos animais.

[ Texto escrito por Silvia Schultz | Todos os direitos reservados, proibida a cópia sem prévia autorização | Portal Nosso Mundo - 2009 ]

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Lançamento Frente Parlamentar pelo Controle Populacional de Animais Domésticos
Aproveito para repassar convite do dep. Gabriel Souza:

O deputado estadual Gabriel Souza tem a honra de convidá-lo para o lançamento da

FRENTE PARLAMENTAR PELO CONTROLE POPULACIONAL DE ANIMAIS DOMÉSTICOS

Dia 06 de maio de 2015 às 11 horas
Salão Júlio de Castilhos - 1º. Andar - Assembleia Legislativa do RGS

A Frente Parlamentar tem como objetivo debater e propor ações sobre a superpopulação, abandonos e maus-tratos de animais domésticos. Além disso, serão discutidos os seguintes temas: esterilização gratuita e universal, identificação por microchipagem, cadastro de registro, educação para guarda-responsável e programa de adoção consciente.

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