Imprimir

Doença do Trato Urinário Inferior de Felinos

Escrito por Silvia Schultz - Médica Veterinária - CRMV - RS 12750.

O gato com sinais de doença do trato urinário inferior

MECANISMO?
● Esforço durante a micção devido à resistência de saída da urina e / ou inflamação do trato urinário inferior ou dor.
● Hematúria associada à micção difícil ou dolorosa indicando sangramento do trato urinário inferior.
● Gatos que fazem força para urinar e passam um tempo excessivo na caixa de areia, diferenciar de constipação ou causas comportamentais.

ONDE?
● trato urinário inferior (bexiga, uretra e próstata).

O QUÊ?
● A maioria das doenças do trato urinário de felinos são idiopáticas, seguido por urolitíase e cistite bacteriana / uretrite.

Doenças que podem causar problemas de micção:
CAUSAS MECÂNICAS:
● Hipercontração vesical: Ocorre quando as contrações do músculo detrusor são acionadas em baixo volume e pressão, resultando em disfunção de armazenamento da bexiga urinária. Pode ser devido à capacidade vesical reduzida, o excesso sensorial transtornos de entrada ou neurológicos. Os sinais clínicos incluem polaciúria e incontinência urinária associada a uma bexiga urinária relativamente vazia.
● estreitamento uretral: Disúria associada a urina de dribles e um excesso de distensão da bexiga urinária.

CAUSAS METABÓLICAS:
● Urolitíase**: Visto principalmente em gatos de meia-idade mostrando cistite persistente ou recorrente e hematúria. A formação de urólitos pequenos pode levar à obstrução uretral, especialmente em gatos machos. Os urólitos mais freqüentes são de oxalato de cálcio e estruvita.

CAUSAS NEOPLÁSICAS:
● Neoplasia*: Os tumores do trato urinário inferior são raros, muitas vezes malignos e, principalmente em animais acima de oito anos de idade. Disúria e hematúria intermitente ou persistente podem ocorrer dependendo do tipo e localização da neoplasia.

CAUSA INFLAMATÓRIA:
● cistite uretrite infecciosa*: Os agentes infecciosos, geralmente bacterianos, podem causar inflamação do trato urinário. A maioria das bactérias causam infecções secundárias a outras causas de doença do trato urinário inferior ou o uso de cateteres vesicais. Os sinais clínicos incluem polaciúria, disúria, com ou sem hematúria. A bexiga urinária é geralmente vazia.

CAUSA IDIOPÁTICA:
● Doença obstrutiva do trato urinário inferior (DTUIF)**: Plugs uretrais são formados causando obstrução uretral mecânica que pode levar à distensão da bexiga, insuficiência renal, pós-renal e morte. Ocorre principalmente em gatos machos com menos de 5 anos de idade. Aparecimento agudo de polaciúria, disúria e estrangúria. A palpação abdominal revela uma distensão da bexiga urinária não-expressável firme, muitas vezes dolorosa. Os sinais de uremia incluem depressão, vômitos, desidratação, hipotermia, bradicardia e fraqueza muscular generalizada.
● Doença não-obstrutiva do trato urinário inferior (DTUIF) / cistite felina idiopática:***: Cistite hemorrágica de etiologia desconhecida, principalmente em gatos de 2-6 anos de idade. História de surtos recorrentes de polaciúria, disúria e hematúria. A palpação abdominal revela uma bexiga pequena, contraída e dolorosa. Ocorre hematúria franca com duração variável.

CAUSA TRAUMÁTICA:
● Trauma uretral*: Traumas pélvicos podem resultar de fraturas, cirurgia e de cateterismos, principalmente quando associada a obstrução uretral. Ruptura uretral pode resultar no acúmulo subcutâneo de urina na região perineal levando à descoloração, inflamação e necrose da pele.

CAUSA TÓXICA:
● toxicidade ciclofosfamida: O uso de ciclofosfamida como um agente terapêutico pode levar a hematúria e disúria.



Doença do trato urinário inferior dos felinos (DTUIF)

Sinais clássicos:
● Esforço com pouca ou nenhuma urina passado (disúria, estrangúria).
● Freqüentemente visto tentando urinar (polaciúria).
● O gato pode gritar durante a micção.
A doença do trato urinário inferior (DTUI) em gatos é caracterizada pela ocorrência de hematúria, disúria, polaciúria e/ou obstrução uretral. Um mesmo protocolo terapêutico pode ser efetivo para alguns pacientes e para outros não, supondo-se, portanto, que a etiologia da DTUI seja múltipla e complexa. Algumas condições representam fatores de risco para o desenvolvimento da doença em gatos domésticos, tais como idade; sexo; sedentarismo; confinamento; estresse; hereditariedade; dieta inapropriada sem controle de minerais, baixa digestibilidade e/ou administrada em excesso.
A obstrução por um tampão mucoso ou por urólitos que impedem a micção é a manifestação mais severa da DTUI, uma vez que instalada a obstrução, a saúde do animal se degrada rapidamente e 24 a 48 horas após, o prognóstico é reservado.

Patogênese:
Na forma não obstrutiva, ocorrem inflamações do trato urinário inferior relacionado principalmente ao estresse, por causas infecciosas (virais, bacterianas) ou urólitos que irritam as vias urinárias.

Na forma obstrutiva, a obstrução por um tampão mucoso ou por urólitos que impedem a micção é a manifestação mais severa da DTUI, uma vez que instalada a obstrução, a saúde do animal se degrada rapidamente e 24 a 48 horas após, o prognóstico é reservado. A obstrução completa produz rapidamente a uremia, caracterizada por depressão, anorexia, desidratação, êmese e diarreia periódica. A pressão retrógrada da urina pode causar isquemia renal, com alívio transitório dos sintomas, seguido rapidamente por peritonite e morte. A uremia conduz ao coma e morte entre 2 a 4 dias.

A azotemia é de origem pós renal em seu inicio e, caso não haja alívio da obstrução, esta pode evoluir para renal, e levar aos sinais citados acima.

Outro aspecto a ser considerado na DTUI é a dieta consumida pelos animais. A maioria dos proprietários de gatos os alimentam com produtos comerciais, que estão disponíveis sob a forma seca. Esses alimentos utilizam ingredientes de baixa umidade e a sua desidratação excessiva ou incorreta pode originar uma diminuição na ingestão de nutrientes.

A castração, tanto de machos como de fêmeas, pode levar à obesidade e à consequente diminuição da atividade física, o que parece predispor a DTUI. A urolitíase por estruvita é mais frequentemente encontrada em gatos castrados, sedentários e obesos, pelo fato de uma atividade
física diminuída. Essa hipoatividade leva a uma diminuição da freqüência de micção, prolongando, assim, o período de formação de cristais e de cálculos. Nesta perspectiva, recomenda-se manter o pH urinário entre 6,0 e 6,5, mediante a utilização de dietas úmidas e com alto teor protéico, que induzem diurese osmótica por aumentar a formação de uréia e aumentar o volume urinário

Ocorre principalmente em gatos machos, possivelmente porque sua uretra é mais longa, mais estreita e menos distensível.


Os sinais clínicos:
- História de lambedura excessiva ao redor da área perineal, e o pênis é visto frequentemente expulso do prepúcio.
- Início agudo de disúria.
- O gato pode gritar durante a micção.
- A inspeção do pênis pode mostrar um material farináceo esbranquiçado bloqueando o orifício da uretra e da ponta do pênis, traumatizada devido ao excesso de lamber.
- A palpação abdominal revela uma bexiga, firme, distendida e dolorosa à palpação. Os gatos obstruídos por mais de 48 horas podem mostrar pouco ou nenhum sinal de dor à palpação abdominal e nesses casos, a bexiga pode se romper se não for manuseada com extremo cuidado.
- Gatos com obstrução parcial podem ser capazes de manter uma bexiga pequna e não desenvolver insuficiência renal. Tais gatos mostram estrangúria: micção dolorosa com um estreito fluxo de urina.
- Os sinais de uremia indicam obstrução completa por pelo menos 48 horas, levando à depressão, anorexia, vômitos, desidratação e hipotermia. A hipercalemia pode causar bradicardia ventricular, arritmia e fraqueza muscular generalizada. A acidose metabólica pode exacerbar os efeitos da hipercalemia sobre o miocárdio.

Patologia clínica:
- As alterações nos valores sanguíneos (uréia, potássio, creatinina, fósforo, pH) dependem da gravidade da a insuficiência renal.
- Os valores séricos geralmente são normais em gatos com doença leve do trato urinário a menos que haja obstrução total do fluxo ou ruptura uretral.
- Azotemia pós-renal (uréia aumentada, creatinina), hiperfosfatemia, hipercalemia tornam-se evidentes por 24 horas. A hipocalcemia é variável. Hiperglicemia leve pode estar presente.

O diagnóstico diferencial:
- Urolitíase: ocorre mais frequentemente em gatos mais velhos
- obstrução uretral funcional: é freqüentemente associada com sinais neurológicos (incontinência)
- trauma uretral: geralmente tem uma história de trauma e lesões sugestivas.
- Estenose: geralmente é precedido por uma história de cateterismo ou trauma.
- Neoplasia

Tratamento:
Depende da gravidade do quadro clínico. Se o gato não apresenta sinais clínicos de insuficiência renal ou não tem obstrução total por mais de 24-36 horas, alivia-se a obstrução uretral e restabelece-se o equilíbrio hidroeletrolítico por via subcutânea ou endovenosa (70 mL/kg).

Se o gato está mostrando sinais de insuficiência renal, ou com obstrução por mais de 36-48 horas, a correção do desequilíbrio de fluidos e eletrólitos é prioritário à restauração da patência uretral.
Considerar cistocentese para o alívio temporário da distensão vesical. A correção hidroeletrolítica deve ser feita por via IV com solução salina e glicose a 5% a fim de hidratar o paciente durante 4-6 horas e reduzir a hipercalemia, acidose metabólica e azotemia.

Se necessário, antiinflamatórios e antibióticos podem ser usados.

Os gatos com insuficiência renal são freqüentemente hipotérmicos e devem ser aquecidos à temperatura corporal normal. A obstrução deve sempre ser removida.

Ao realizar o cateterismo, o animal deve ser sedado (quando as condições clínicas permitirem – opiáceos, acepromazina, diazepam) a fim de facilitar o procedimento e ajudar a minimizar o trauma uretral e ruptura de uretra ou bexiga. Traumas durante o cateterismo podem levar a inflamação com edema do tecido periuretral e obstrução funcional da uretra.

A Uretrostomia perineal é o tratamento cirúrgico indicado para machos com crises recorrentes de doença obstrutiva. É um método de desvio permanente da uretra, onde a uretra peniana é excisada e a uretra pélvica é suturada à pele perineal.

Prevenção:
- dietas não-calcinogênicas para minimizar a formação de cristais de estruvita e manter um pH urinário baixo (<6,5) e baixa gravidade específica (<1,030, idealmente 1,020).
- Carne ou líquido com sabor de peixe ou água pode ser adicionado à dieta a fim de aumentar a ingestão de água.
- incentivar o gato a beber água, fornecendo a água de acordo com a sua predileção: vasilha sempre cheia, água renovada diariamente, até mesmo, água corrente da bica, dentre outras.
- Manter a caixa de areia em um local de fácil acesso
- Estimular o animal a exercitar-se
- Minimizar o estresse
- Evitar obesidade

Prognóstico:
O prognóstico é grave se:
● A duração da obstrução é superior a 60 horas.
● O volume globular do sangue centrifugado urina seja superior a 2%.
● gravidade específica urinária é inferior a 1,020.

A taxa de recorrência é de 35-50%, principalmente dentro de 6 meses após a internação. A recorrência parece ser maior em gatos com menos de 4 anos de idade. O prognóstico quando é realizada a uretrostomia é bom no que se refere à recorrência da obstrução uretral, mas episódios recorrentes de cistites não-obstruídas podem ocorrer. No pós cirúrgico existe o risco, embora pequeno, de estenose de uretra e / ou incontinência urinária, além de uma maior predisposição à infecções ascendentes do trato urinário.

Referências:
NELSON, R. W.; COUTO, C. G. Medicina interna de pequenos animais. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, cap 47, 2001. p.1084.

Osborne CA, Kruger JM, Lulich JP (1996) Feline lower urinary tract disorders - Definition of terms and concepts. The Veterinary Clinics of North America: Small Animal Practice. 26: 169-179.

OSBORNE, C.A., KRUGER, J.M., JOHNSTON, G.R. et al. Distúrbios do trato urinário inferior do gato. In: ETTINGER, S.J. (ed). Tratado de medicina interna veterinária. Manole, 2000. v. 2

OSBORNE, C. A.; KRUGER, J. M.; LULICH, J. P.et al. Afecções do trato urinário inferior dos felinos. In: ETTINGER, S. J.; FELDMAN, E. C. Tratado de medicina interna veterinária: moléstias do cão e do gato. 5 ed. Rio de Janeiro: Guanabara Koogan, 2004. v.2, cap.175,p.1802 -1841.

RAND, Jacquire. Problem-based feline medicine. St. Louis Missouri: Elsevier Saunders Inc., 2006. cap. 16, p. 179-183

RECHE, Jr., A.; HAGIWARA, M.K.; MAMIZUKA, E. Estudo clínico da doença do trato urinário inferior em gatos domésticos de São Paulo. Braz. J. vet. Res. anim. Sci., São Paulo, v. 35, n. 2, p. 69-74, 1998.

Gostou do artigo? Compartilhe então!

Hits: 20169

Comentarios (0)


Mostrar/Esconder comentarios

Escreva seu Comentario

Voce precisa estar logado para postar um comentario. Por favor registre-se se caso nao tenha uma conta

busy